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Duas Rainhas

Cinema 19/05/2019 às 11:08

Viúva do rei da França aos 18 anos, Mary Stuart volta à Escócia, tornando-se rainha.



Prima da soberana inglesa, Elizabeth I, ela disputa a indicação à sua sucessão, já que a outra, solteira e sem filhos, não tem herdeiros.


Em tempos em que se discute empoderamento feminino, o drama de época Duas Rainhas volta os olhos para duas mulheres que mediram forças na Grã-Bretanha no século 16, a soberana da Escócia Mary Stuart (Saoirse Ronan) e a inglesa Elizabeth I (Margot Robbie).
 
Se a intenção não é propriamente reescrever a história, no roteiro assinado por Beau Willimon (House of Cards), a partir de livro de John Guy, pelo menos a ideia é confrontar algumas de suas certezas, criando uma ficção histórica atraente - essa certeza sendo a ferocidade do empenho de Elizabeth para eliminar Mary, que era sua rival na linha de sucessão do trono do império britânico. As duas eram primas e Elizabeth, solteira, não tinha herdeiros. Mary, pelo sangue e disposição, era candidata.
 
O final dessa disputa, todo mundo sabe, foi a execução de Mary, em 1587, aos 45 anos, episódio que abre o filme de Josie Rourke, diretora estreante em cinema com sólida experiência teatral, sendo a primeira mulher a dirigir um teatro importante de Londres, o Donmar Warehouse.
 
Procura-se salientar mais as semelhanças do que as diferenças entre as duas rainhas. Ambas eram, afinal, mulheres com poder num mundo masculino, inteiramente cercadas por homens imbuídos de agendas próprias, com lealdade muito duvidosa. Mesmo o irmão mais velho de Mary, James (James McArdle), ou seu segundo marido, lorde Darnley (Jack Lowden). Ainda que se recuse a casar, mantendo uma relação aparentemente platônica com o nobre Robert Dudley (Joe Alwyn), Elizabeth não tem como inteiramente recusar as pressões de seus assessores e conselheiros.
 
Nem por isso, as personagens são vitimizadas. Ao contrário, especialmente no caso de Mary, destacam-se o seu carisma e iniciativa, apesar da juventude - ela enviuvara aos 18 anos do rei da França, retornando ao seu país. Dona de um temperamento independente e forte intuição política, ela contraria com sucesso alguns conselhos recebidos do irmão e assessores em favor da Escócia. O peso do machismo e de sua singular posição como católica num reino dominado por protestantes permitiu que fossem lançados contra ela os piores recursos do discurso religioso-moralista, especialmente a partir do pastor John Knox (David Tennnant).
 
Elizabeth, nesta versão, é um tanto despojada da aura de rainha poderosa, responsável pela transformação da Inglaterra num império, vista pelo ângulo de sua solidão, revelando uma imagem mais vulnerável do que a história consagrou.
 
Evidentemente, este é o tipo de filme que cutuca as sensibilidades dos historiadores, incomodados com as liberdades tomadas em relação aos fatos conhecidos - como um encontro entre as duas, que nunca teria acontecido. O hipotético contato direto tem por função trazer à tona mais aspectos humanos de sua disputa do que qualquer outra coisa. De toda maneira, esta e outras licenças poéticas estão aí para reforçar intenções dramáticas que nada têm a ver com rigor histórico. Pode-se aceitá-las em nome do bom funcionamento de uma história de ficção baseada em acontecimentos reais, que se interessa em colocar em discussão figuras femininas de poder em contextos altamente desfavoráveis.
 
Em termos de valores de produção, trata-se de um filme tecnicamente muito bem-feito, que obteve duas indicações ao Oscar, maquiagem/cabelos e figurino.  

Neusa Barbosa

Fonte: Cineweb

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