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Era uma vez ... em Hollywood

Cinema 16/08/2019 às 08:33

Na Hollywood do final dos anos 1960, Rick é um ator de faroestes.


Não lhe falta trabalho, já que ele nunca recusa ser o vilão, ainda que morra no final. Nem por isso ele se sente seguro de seu talento. Um ombro amigo é Cliff, seu motorista, dublê e confidente, cara que é suspeito de ter matado a própria mulher.

Como se esperava, em maio, Cannes parou para ver o novo filme de Quentin Tarantino, Era uma vez... em Hollywood, uma frenética fusão de homenagens dentro do mundo do cinema, a começar pelo título, que tira o chapéu para um dos mestres idolatrados pelo diretor norte-americano, o italiano Sergio Leone.
 
Embora o spaghetti western seja bastante citado ao longo do caminho - Sergio Corbucci, o diretor do Django de 1966, será explicitamente lembrado -, o centro da história é a indústria de sonhos da Hollywood em 1969, cujas entranhas são expostas através da amizade entre um ator de seriados e faroestes, Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), e seu motorista e dublê, Cliff Booth (Brad Pitt).
 
Pelo perfil de ator que está no centro dos acontecimentos, logo se vê que se trata de uma dupla de outsiders, não da “grande” Hollywood, mas dessa máquina que oferece sem parar produtos de entretenimento que não são tidos como “nobres”, mas alimentam a imaginação e a diversão de milhões de pessoas e são, portanto, parte essencial do funcionamento de toda a engrenagem.
 
Astros consagradíssimos, DiCaprio e Pitt aproveitam deliciosamente a chance de se entregar a personagens tipo B, bem longe do que representam na vida real. Rick é um ator muito ativo, não tendo medo de encarar vilões em todos os seriados e faroestes, ainda que isso signifique que ele sempre morre no fim - e é por aí que um produtor, Schwarz (Al Pacino), procura convencê-lo a dar um tempo de Hollywood, dirigindo-se à Itália dos spaghetti westerns.
 
Há várias referências a personagens reais por aqui e Clint Eastwood, que foi atuar em spaghetti westerns, é apenas uma delas. Há inúmeros personagens reais, com seus próprios nomes, caso de Steve McQueen (Damien Lewis) e, o caso mais dramático, Sharon Tate (Margot Robbie) e Roman Polanski (Rafal Zawierucha) - então um dos casais mais famosos de Hollywood, na esteira do sucesso de O Bebê de Rosemary (1968).
 
Todo mundo na plateia pode saber a tragédia real que atingiu aquele casal, em 1969 praticada por jovens adeptos do fanático Charles Mason (Damon Herriman). Mas documentário não é, decididamente, o gênero de Tarantino. Ele revisita a História para recontá-la, para injetar novos pontos de vista, como fez em Django, ou em Bastardos Inglórios. E mais não se diga sobre isso, para não dar spoiler.
 
Os temas dentro do filme são inúmeros - a angústia de Rick sobre se deve ou não ir para a Itália, seus problemas com alcoolismo (aí, a lista de astros com perfil  semelhante é infinita) e as dúvidas sobre o próprio talento. Ao seu lado, o dublê Cliff é um suporte, amigo para todas as horas, injetando confiança.
 
Pitt compõe com muita segurança um tipo durão, que é suspeito de ter matado a mulher num barco - um caso muito semelhante, por exemplo, ao da atriz Natalie Wood - e que representa, de várias maneiras, uma masculinidade com alguma toxicidade. Mas isso tem nuances. Quando ele segue uma das adeptas de Mason (Margaret Qualley) até o rancho Spahn, onde eles viviam placidamente, guiando passeios a cavalo naquela altura, ele se mostra surpreendentemente prudente diante da desinibição da garota.
 
Na pele de Sharon Tate, que tem uma participação pequena e marginal na narrativa, centrada no relacionamento de Rick e Cliff, Margot Robbie destacou, na coletiva de imprensa de Cannes, ter procurado retratá-la “como um raio de luz” - que foi como ela lhe foi descrita por muitas das pessoas que a conheceram na vida real. Mesmo não tendo muitas falas no filme - uma observação que irritou Tarantino na coletiva de Cannes, quando foi feita por uma repórter do The New York Times- , Margot realmente resplandece numa sequência em que vai a um cinema assistir a um filme de que participou, a comédia Arma Secreta contra Matt Helm (1968), em que contracena com Dean Martin.
 
Quem espera violência, sabe que é só uma questão de tempo. Há toda uma grande sequência no fim em que comparece aquele Tarantino capaz de se esbaldar no sangue na tela. Na coletiva, ele admitiu que este filme é uma espécie de soma de todos os oito anteriores. Ele remexeu na panela de Hollywood, que ele conhece com uma obsessão de nerd, mas sobretudo na própria auto-referência. Entretanto, a mistura não parece magistral. O filme apaixonou muitos, mas desagradou outros tantos.

Neusa Barbosa

Fonte: Cineweb

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